Sobre o serviço público de televisão

O que deve de facto caber no serviço público de televisão? E deve existir? Aqui ficam algumas notas sobre o tema que hoje alinhei na minha coluna do Jornal de Negócios:

 

Vale a pena ter um serviço público de televisão? - Vale, se o investimento for reprodutivo e estratégico. Se for apenas para manter uma estrutura e um aparelho instalados, não vale. A divulgação e manutenção da  língua e da cultura portuguesa são o objectivo estratégico em que vale a pena investir. Isto, traduzido para televisão, o que quer dizer?

 

Vou por partes: em primeiro lugar, provavelmente, temos que passar de uma estação de televisão que faz tudo, como a RTP, para um “broadcaster” que se limita a escolher conteúdos, fazer encomendas de produção e alinhar a sua emissão. Escolher conteúdos tem a ver com o investimento – que é o que os contribuintes vão pagar.

 

Eu diria que uma programação infantil de qualidade, com uma parte importante de produção em língua portuguesa, uma produção de documentários relevante, uma memória da obra de criadores portugueses - do teatro às diversas formas de músicas – passando por obras audiovisuais que acompanhem a ficção de autores clássicos e contemporâneos portugueses, poderia ser um bom ponto de partida.

 

Tudo isto pode ser feito por produtores independentes, que aliás já têm experiência nas diversas áreas, privilegiando o investimento em obras que possam circular no universo da lusofonia e que não se esgotem no seu momento de emissão. A RTP não faz nada disto, de forma sistemática, desde há décadas.

 

Os seus enormes e caros meios técnicos na produção e na informação não são necessários para a definição de serviço público – e são uma das causas dos custos que existem hoje em dia. Se é certo que uma estação de televisão precisa de informação na sua programação, nada obriga a que ela a faça internamente – pode concessionar uma boa parte da actualidade a produtores e até a estações privadas, como hoje acontece em alguns países.

 

Eu preferiria aliás que a estação de serviço público não tivesse um aparelho de informação gigantesco  e que tratasse sobretudo de programação, de encomenda de conteúdos e de uma criteriosa escolha de compras internacionais.

 

Neste campo, das compras internacionais, não faz sentido, hoje em dia, que a melhor produção, por exemplo, da BBC, não seja exibida no serviço público. Se há uns anos podia fazer sentido passar séries da Fox ou Sony que de outra forma aqui não seriam exibidas, hoje, com a penetração do cabo a atingir 70% dos lares, esta opção não faz qualquer sentido. Vale a pena olhar para a produção europeia de séries e de documentários, vale a pena olhar para a produção independente de cinema de todo o mundo.

 

O serviço público de televisão só faz sentido se o investimento público que lá for colocado servir para desenvolver uma industria de audiovisual nacional e para criar e fazer crescer novos públicos. Se é para fazer mais do mesmo, não vale a pena.

 

publicado por falcao às 13:06 | link deste post | comentar