A comunicação nas artes

 
Pedro Cabrita Reis não é só um dos maiores artistas plásticos da sua geração - criativo, excessivo, provocador, arrojado. A isto acrescenta uma íntima relação entre a sua actividade artística e a forma como gere e posiciona a sua marca própria, que é o seu nome e assinatura. Resguarda-se durante um tempo, aparece aqui e ali e, de repente, está presente em todo o lado, de forma avassaladora.
 
Desta vez resolveu mostrar. em duias exposições diferentes e complementares, mas simultãneas, cerca de 700 obras suas. Quase quatro centenas, todas desenhos, estão na Fundação Carmona e Costa, no antigo edifício da Bolsa, ao Rego. Em cada uma das salas estão misturadas as diversas fases da sua carreira num aparente caos, cheio de humor, que afinal nos encaminha para coincidências. E mais trezentas peças, pinturas, esculturas e instalações, ocuparam o Museu Berardo, no CCB, rigorosamente ordenadas por épocas cronológicas e fases criativas. As duas exposições completam-se e merecem ser vistas em tempos diferentes. Para além da qualidade,  a quantidade das obras expostas é por si só uma provocação e a afirmação de uma imagem de marca.
 
De facto, além de uma exposição do talento do artista, esta é uma genial operação da marca criativa Pedro Cabrita Reis. Mostra a diversidade da sua obra, a constante evolução, a permanente experiência. Ele próprio orientou a montagem de ambas exposições, e nestes dias desdobrou-se em várias entrevistas. Ocupou todo o espaço que podia - literalmente nas paredes das instituições que acolheram estas exposições, mas também nos media, nas conversas, nos coleccionadores, nos poderes. Pela forma como foram pensadas e executadas, em simultãneo, estas exposições ganham outra dimensão e outra repercussão. Uma retrospectiva, digamos, normal, não seria assim. 
 
Percebe-se como Pedro Cabrita Reis é organizado ao ponto da obsessão com a sua obra - recolhe informação, digitaliza, guarda, arquiva, reconstrói. O resultado está na forma como depois a utiliza e manipula para mostrar o que tem feito. Para além do talento de artista, está o talento de comunicador, o talento de utilização da sua marca. É muito raro encontrar um caso assim.
publicado por falcao às 10:30 | link deste post | comentar